Infância e Comportamento - Autismo sem mitos: entenda porque ouve-se tanto falar neste transtorno
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Autismo sem mitos: entenda porque ouve-se tanto falar neste transtorno
Autismo sem mitos: entenda porque ouve-se tanto falar neste transtorno

Uma verdadeira explosão!!!

Assim, caracterizamos os últimos 10 anos em relação ao número de casos diagnosticados de Autismo.

Transtorno Autista, Autismo, Transtorno do Espectro do Autismo...

Até a própria nomenclatura tem sofrido mudanças.

Você deve ter ouvido falar desse assunto muito mais nos últimos 2 anos do que em toda sua vida, não é mesmo?

E frequentemente, ouvimos a pergunta:

Mas o que está acontecendo?

Nesse artigo, você vai encontrar respostas às indagações que não saem de sua cabeça quando pensa ou ouve falar em Autismo, tais como:

- Quais são, para os cientistas, as reais causas do aumento considerável dos diagnósticos do Transtorno do Espectro do Autismo?

- Quais são as doenças que podem ser confundidas com o Autismo?

- Como ter a certeza de que seu filho, aluno ou paciente é realmente portador do Transtorno do Espectro do Autismo?

Esse NÃO é mais um artigo para falar sobre o que é Autismo, quais são seus sintomas ou qual seria o melhor tratamento. Para isto, indicamos boas fontes como o livro Autismo Infantil, da editora Atheneu, o site www.ama.org.br e o próprio Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). A nossa intenção é falar sobre o que tem acontecido nos consultórios, nas escolas, nas famílias, enfim, o que vivenciamos todos os dias.

E com certeza, você deve ter um parente ou um aluno ou um filho de uma amiga ou um paciente com o diagnóstico. E muitas vezes, você deve ter se perguntado: Mas, o que está acontecendo? Antes não "tinham" tantas crianças com Autismo.

Dê uma olhada nas imagens abaixo e veja que o espanto não é só seu.

Primeiramente, temos que lhe dizer que Autismo não é privilégio de alguns. Na Coreia do Sul, em 2011, cientistas apontaram o diagnóstico de Autismo em 1 a cada 38 crianças (há controversas...). Nos Estados Unidos, a estatística é de 1 caso para um grupo de 68 crianças.

E no Brasil? Não temos estudos concluídos recentemente (até a publicação desse artigo). Porém, a estimativa deve ser semelhante à prevalência mundial, que é de 1 a cada 100 crianças.

Assim, o que podemos dizer é que o Autismo é democrático, não se importa com cor, raça, religião, ideologia política... E mais, ele sempre existiu!

A grande mudança está relacionada ao fato de compreendermos, agora, que existe um Autismo com inteligência normal e com comprometimento clínico menor, o que não era pensado e diagnosticado há aproximadamente 25 anos. Com isso, o Autismo deixou de ser raro e passou a ser um transtorno mais presente em nosso dia a dia.

Mitos e verdade sobre o autismo

Mesmo sendo um tema bastante difundido - artigos e livros são publicados constantemente - ainda há muitos questionamentos sobre o Autismo, suas causas, diagnósticos, tratamentos.

Sempre nos deparamos com dúvidas como: Será que pessoas que apresentam um comportamento fora da média e por ventura são diagnosticadas, de fato merecem um diagnóstico de Autismo?

Existe um exagero no diagnóstico feito por profissionais de saúde?

Calma, vamos chegar lá. Mas, antes, vamos discutir uma outra questão: quais são as causas do Autismo?

Nesse momento, uma avalanche de suposições entrará em ação. Correntes e mais correntes tentarão te convencer. E aí, você pode se sentir perdido. Mas, é exatamente isso que NÃO queremos que aconteça com você ao ler nosso artigo. Só vamos falar e reforçar ao longo do nosso texto o que já se constitui como evidência científica sólida.

"Ah, doutor, mas eu vi um artigo que falava que o autismo era causado pelas vacinas".

Um artigo isolado não é ciência. Uma ideia para ser cientificamente aceita necessita de replicação, necessita de padronização em seu estudo. E nem sempre é o que encontramos por aí.

Portanto, prepare-se, porque nesse momento nós vamos te ajudar a desconstruir algumas ideias que pessoas vem tentando implantar em sua mente.

São os chamados MITOS relacionados ao Autismo.

1º mito: Autismo é causado por uma mãe que não ama

Houve uma época em que a ciência culpava as mães pelos sintomas do Autismo em seus filhos. Falava-se em rejeição e consequente redução de afeto. Eram as chamadas "mães geladeiras".

A relação era a seguinte, como as mães não brincavam com seus filhos autistas, elas eram as culpadas pelo seu isolamento social e consequente sintomas autísticos.

Mas, o cerne do diagnóstico do Autismo não é a pouca habilidade ou pouco interesse em interagir? Como elas poderiam brincar com seus filhos igual as outras mães brincavam?

Autismo tem raízes bem profundas e consolidadas dentro de uma causa orgânica, com base em alterações neuronais/sinápticas bem estabelecidas, genética e não emocional.

2º mito: Autismo é causado por vacinas

Uma explosão de casos (e mortes) por sarampo foi provocada por essa farsa. Inocentes perderam suas vidas por irresponsabilidades de alguns "cientistas".

Andrew Wakefield, no ano de 1999, publicou um artigo em uma das revistas mais conceituadas no meio científico (The Lancet) em que apontou uma relação entre a vacina Tríplice Viral (MMR: Sarampo-Caxumba-Rubéola) e o Autismo.

Anos após anos, vários pesquisadores ao redor do mundo tentaram replicar seus resultados, mas não lograram êxito. Daí desconfiaram que algo foi feito de forma errônea. E assim, em 2010, após uma extensa investigação, o Conselho Médico Britânico encontrou evidências de fraude em sua publicação e o médico teve seu registro profissional cassado.

Até hoje, essa farsa encontra adeptos pelo mundo.

3º mito: Autismo é causado por glifosato (agrotóxico)

"Em 2025, metade das crianças do mundo terão Autismo".

Você pode ter lido essa frase em algum lugar. Nós mesmos nos deparamos com ela em nossa timeline do facebook ou em buscas pelo google.

Mas, vamos lá!

Há 40 anos, o glifosato é um dos agrotóxicos mais usados em todo o mundo. Coincidentemente, nesse mesmo período, o número de casos de Autismo também aumentou. Portanto, mais agrotóxico em uso, mais autistas... Pronto, temos uma correlação!!!

Mas esta é uma correlação ao acaso, uma suposição sem respaldo científico algum, proposta por uma cientista da computação do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussetts), que em sua análise, o agrotóxico estava nas vacinas e no leite materno, e consequentemente adoecendo nossas crianças. Mais uma vez, outros cientistas usando técnicas corretas para detectar se o agrotóxico poderia ser tão maléfico não encontraram resultados parecidos. Então, só para fechar essa parte, correlação não necessariamente é causa.

4º mito: Autismo é causado pelo mercúrio ou por outros metais pesados

O mercúrio é o mais famoso deles, vira e mexe está na mídia. Já foi apontado por estar presente em quantidade elevada nas vacinas, por estar presente em animais marinhos consumidos pelas mães grávidas ou pelas próprias crianças e até nos dentes tratados pelas mães (amálgama).

Estudos feitos com metais aferidos em fio de cabelo, na urina, no sangue, já foram realizados, mas nenhuma relação causal entre os níveis desses metais e a presença da sintomatologia do Autismo foi confirmada.

Continue lendo o nosso artigo que abordaremos mais a respeito desse tema tão polêmico.

Compartilhe esse texto com seus amigos, para que mais e mais pessoas possam nos ajudar a lidar com o excesso de exposição às telas.

Causa e Consequência

Até aqui você leu sobre o que não causa Autismo. Mas, será que existem dados que remetem a alguma correlação de causa e consequência?

Sabemos atualmente que há uma correlação entre genes e ambiente, o que é hoje denominado de epigenética e que define a expressão da maioria das doenças, inclusive do Autismo. Não existe um único gene do Autismo, mas já foram encontrados pelo menos 100 genes relacionados com o Transtorno do Espectro do Autismo.

Ainda não há exames de sangue, mesmo que modernos do ponto de vista de investigação genética, que fazem diagnóstico de Autismo. O diagnóstico é clínico.

Questões ambientais também estão bem estabelecidas, influenciando na epigenética e consequentemente no surgimento dos sintomas, tais como, prematuridade, baixo peso ao nascer, uso de álcool e drogas por parte da genitora durante a gestação, quadros infecciosos durante a gestação e idade materna e paterna avançadas. É importante ressaltar que a maioria das alterações genéticas e epigenéticas iniciam durante a gestação.

Pesquisas relacionando alterações na microbiota intestinal têm sido conduzidas ao longo dos últimos anos em caráter experimental, mas ainda sem uma conclusão científica expressiva nos resultados que a definam como causa do Autismo.

Enfim, ainda há muito o que se estudar e, principalmente, há que se ter cautela quanto à publicação dos resultados.

Situações comuns no consultório

Mas, se está difícil para entender de onde vem o Autismo, imagina o que passamos para diagnosticá-lo!

São anos e anos de treinamento, pacientes e pacientes atendidos, casos e casos discutidos em equipe interdisciplinar para que o "olhar clínico" encontre o diagnóstico de Autismo. Vários são os quadros que geram confusão na elaboração do diagnóstico correto. Como exemplo, vamos expor abaixo algumas situações comuns no dia a dia do consultório.

Situação 01

Vamos ler o relato pontual de três mães de crianças de 1 ano e 6 meses de idade.

"Meu filho gosta muito de rodar."

"O meu dá pulinhos quando leio o seu livrinho favorito."

"Já o meu não gosta de barulho e chora quando ouve um trovão."

Será que essas três crianças podem ter Autismo? Esses comportamentos são os chamados comportamentos estereotipados?

Devido à maior exposição na mídia dos sinais e sintomas do Autismo, cada dia mais e mais pais procuram profissionais para tirar dúvidas sobre algum comportamento específico, presente em seu filho, que também pode ocorrer no Autismo.

O que sempre explicamos é que um padrão de comportamento, ou mesmo um comportamento isolado, sem que ocasione prejuízo ou repercussão significativa não pode definir um diagnóstico.

Então, só movimento repetitivo ou somente maior sensibilidade sensorial não são suficientes para que o diagnóstico de Autismo seja afirmado.

Situação 02

Mais relato de caso:

"Pedrinho tem dois anos e ainda não fala nenhuma palavra. Parece que ele tem uma linguagem própria. Ele olha pra mim, se esforça para interagir, tenta falar, aponta para o que quer e às vezes até me puxa pelo braço."

Nesse caso, temos uma criança de fato com atraso de linguagem, mas que busca o contato, que tenta se comunicar.

O prejuízo na linguagem interfere na qualidade de sua interação social, mas pode aparentemente ser a única barreira para uma comunicação adequada.

Situação 03

Outra situação comum no dia a dia da prática clínica.

"Doutor, meu filho tem 3 anos e é muito agitado. Ele não consegue me ouvir, anda de um lado para o outro, arremessa seus brinquedos, destrói tudo. Doutor, ele não para!!! Nada prende a atenção dele."

Sabemos que a agitação psicomotora é comum em pacientes autistas, bem como momentos de maior irritabilidade, principalmente em situações de frustração.

Porém, como já mencionado antes, sintomas isolados não fazem nenhum diagnóstico. Essa situação pode ser decorrente de um atraso maturacional, de problemas ambientais ou até mesmo de outros transtornos neuropsiquiátricos.

Como deve ser feito o diagnóstico, então?

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O melhor diagnóstico do autismo

Qual é a importância de um diagnóstico? Para o Transtorno do Espectro do Autismo com certeza é o início do processo de estimulação precoce. Uma vez que, inúmeros estudos vem demonstrando que o diagnóstico e a intervenção terapêutica iniciado até os 3 anos de idade tem melhor evolução ao longo do desenvolvimento.

Pode acontecer, inclusive, que não seja possível a conclusão diagnóstica precisa em um determinado momento e idade ou mesmo que a formulação diagnóstica se modifique com o passar do tempo. O mais importante é não esperar, detectar que o desenvolvimento não está acontecendo de maneira adequada e iniciar a intervenção o mais precoce possível, independente do diagnóstico.

Em relação ao Autismo e a outros Transtornos do Neurodesenvolvimento, a nossa medicina volta a ser aquela do início do século passado, isto é, dependente de uma análise estritamente clínica.

E repetimos: até então, não há nenhum exame que defina o diagnóstico do Autismo. Exames podem ser solicitados para definir outras questões, mas não para apontar para o diagnóstico do Autismo.

Por isso, a eficácia no diagnóstico depende de treinamento por parte dos profissionais envolvidos. Depende da vivência de casos repetitivos e ao mesmo tempo tão diferentes dentro do Espectro do Autismo.

Depende muito do interesse em se perceber e valorizar os sintomas dentro de um contexto ambiental saudável ou não. Depende da compreensão imprescindível do que é um desenvolvimento normal, em que fases são superadas mais lentamente ou não.

Isto é, depende de vários fatores.

Não é fácil elaborar o diagnóstico de Autismo, absolutamente não o é. E ainda, para piorar, há alguns transtornos que podem ser confundidos com o Autismo, como:

• Transtorno de Linguagem

• Deficiência Intelectual

• Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade

• Mutismo Seletivo

• Transtorno do Movimento Estereotipado

• Esquizofrenia

Mas, o profissional ao primeiro sinal de suspeição, mesmo que não haja todas as evidências conclusivas para que se bata o martelo, não pode se esquivar do que seus olhos veem. Isso não é aterrorizar a família, mas sim mostrar os sinais e sintomas que preocupam e propor soluções para que se melhore.

Assim, ver o paciente, ouvir a família, compartilhar informações com uma equipe interdisciplinar é o melhor caminho para alcançar o diagnóstico em tempo hábil e aumentar o tempo com reabilitação para o indivíduo autista.

A certeza do diagnóstico vem com o tempo, com a evolução, em que o luto inicial dá lugar ao sorriso diante de cada conquista.